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Por que você não evolui – Convicção

Com os recentes debates sobre racismo, religião, política e até mesmo sobre poker que andaram rondando os meus últimos posts nas redes sociais, eu me peguei pensando:

– Será que é teimosia? Será que é preguiça de raciocinar? Por que certas pessoas negam fatos claros, à vista de todos?

Por exemplo, na esfera da religião. Como em pleno século 21 e com todos os avanços da ciência, certas pessoas ainda vivem sobre certos dogmas religiosos insensatos e ultrapassados (como por exemplo, não usar camisinha correndo o risco de pegar uma doença ou engravidar, porque o sexo deveria ser exclusivamente para procriação). Não quero aqui nem entrar na quantidade imensa de furos em crenças religiosas, até porque não quero perder o ponto principal do post.

Mas será justamente a religião que vai pavimentar o meu argumento. E para o meu leitor do meio do poker, essa discussão vai te levar a entender porque você não está avançando no jogo também.

Já ouviu falar nos Seekers? Provavelmente não. Eles eram um pequeno grupo com crenças religiosas, um culto, que ficou conhecido nos anos 50 nos EUA. O psicológo Leon Festinger, da Universidade de Stanford, publicou um trabalho onde descreve como ele próprio e alguns colegas se infiltraram entre os membros desse culto para estudar sobre convicções.

“Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar. Fale para ele que você não concorda e ele vira as costas. Mostre a ele fatos e fotos e ele questiona e desacredita as suas fontes. Apele para a lógica e ele não consegue entender o seu ponto.” – Leon Festinger

Os Seekers acreditavam que sua líder, Dorothy Martin, conseguia se comunicar com alienígenas. Um desses aliens, Sananda, seria a reencarnação astral de Jesus Cristo.

Dorothy transmitia as mensagens astrais através de textos psicografados. Tudo corria bem, até que a líder trouxe uma informação vital para os participantes do culto. Em 21 de dezembro de 1954, a Terra passaria pelo apocalipse. Mas os membros do culto não precisavam se preocupar: antes que o continente se dividisse ao meio e o mar invadisse os EUA, discos voadores iriam resgatar os religiosos, e levá-los para outro planeta. A data já estava agendada.

Os participantes começaram a se preparar para esse dia. Alguns venderam suas casas, largaram seus trabalhos e se prepararam para a partida da Terra. Uma história curiosa diz que eles até removeram os jóias e zíperes das calças, porque eles acreditavam que o metal era proibido nas naves espaciais.

Festinger e o seu time estavam com os fiéis quando a profecia não se realizou. Primeiro, os aliens não apareceram para resgatar os membros do culto. Depois, 21 de dezembro passou sem incidente algum. O mundo não acabou, os aliens não vieram, e então você provavelmente deve estar pensando que os fiéis caíram em si que aquela “religião” era uma farsa, que não havia aliens, nem mensagens de Jesus Cristo psicografadas. O comportamento dos cultistas ao serem desacreditados, era o objeto do estudo de Festinger.

E esse era o momento que Festinger aguardava. Como pessoas tão emocionalmente envolvidas com uma convicção reagiriam quando sua crença se mostrou falsa?

Primeiro eles não conseguiam explicar. Começaram a buscar explicações no que já acreditavam. Se recusavam a realizar que estavam errados. Mas buscavam uma explicação. Até que a líder trouxe uma nova mensagem: eles foram poupados no último minuto. O pequeno grupo dos Seekers, espalharam tanta luz (?) pela cidade naquela noite que Deus resolveu salvar o mundo da destruição. Sendo assim, os aliens cancelaram a carona.

Em outras palavras, a crença forte deles na profecia, os salvou  da profecia (e de quebra, salvou a Terra).

Mas o mais surpreendente veio depois. O grupo, que antes era pequeno e não tentava evangelizar ninguém, após essa data passou a acreditar ainda mais firmemente que a Terra havia sido salva pela sua fé, e que portanto, era necessário converter mais pessoas a religião. E eles passaram a ativamente recrutar novos membros para seu culto e religião, dessa vez dizendo que graças as suas conversas com os aliens e com Jesus Cristo a Terra havia sido salva por eles.

Parece absurdo?

Desde Fastinger, uma série de outros estudos na área de psicologia e neurociência demonstraram que nossas convicções pré-existentes, muito mais que quaisquer fatos podem distorcer nossos pensamentos e até mesmo “colorir”, tornar mais suave nossas conclusões lógicas.

O termo utilizado é “raciocínio motivado”, e ele diz que nossas emoções são ativadas antes do nosso raciocínio lógico quando somos confrontados com novas ideias. Sentimos uma repulsa natural, instintiva, contra informações que desafiam as nossas crenças, e isso contamina nosso raciocínio. Ao invés de raciocinar, nós racionalizamos, buscando falsas memórias que justifiquem nossas convicções pré-existentes. Na falta de argumentos, ficamos agressivos, arredios e nos recusamos a aceitar opiniões contrárias.

Essas crenças também nos levam a decidir se uma fonte é confiável ou não. Ou seja, nós costumamos invalidar uma fonte, seja ela científica ou não, caso essa fonte apresente informações que vão contra as nossas crenças. Por esse motivo, infelizmente, é extremamente difícil convencer as pessoas de algo diretamente, através de dados claros e cálculos irrepreensíveis, se esse algo desafia a visão de mundo dessas pessoas. Ainda mais graves, se resolvermos confrontar essas pessoas com fatos irrefutáveis, elas se tornam ainda mais radicais e fervorosas.

Quantas vezes você já se pegou tentando convencer uma pessoa de algo, e de repente, você percebeu que a pessoa não estava prestando atenção aos seus argumentos? Ela estava apenas esperando uma brecha para voltar a defender o ponto de vista dela, sem realmente ter ouvido suas argumentações.

Qual a solução? Pensar.

Você deve estimular o questionamento constante e sua auto-crítica. Leia sobre o que desafia suas crenças. Experimente se questionar e se permita ouvir. É provável que você aprenda muito nesse caminho.

Eu dou aulas de poker há muitos anos. E já encontrei inúmeros alunos, que apesar de eu apontar onde estava o erro em suas estratégias e técnicas, simplesmente, ignoravam os comentários, por achar que a sua linha de raciocínio já estava correta e não havia necessidade de mudar.

Certa vez, com um jogador do meu time, após 20 minutos tentando explicar e racionalizar sobre uma jogada, percebi que ele nem ao menos estava me ouvindo e tinha vontade zero de mudar seu pensamento. Isso apesar de ele fingir que estava compreendendo.

O ser humano pode ser extremamente teimoso. Ou ainda, preguiçoso para pensar e aceitar mudanças de paradigmas. Aliás, esse é o problema: criamos muitos paradigmas para nossas vidas.

Uma vez que acreditamos em algo, não conseguimos mais analisar criticamente. E temos dificuldade em abrir a cabeça para mudanças.

Quer evoluir no jogo ou na sua vida? Abra a cabeça. Permita-se ouvir novas opiniões. E reflita realmente. Não tire conclusões precipitas, deixe sua conclusão para depois de analisar os fatos.

E para encerrar: quer evoluir ao menos no poker? Venha fazer uma session review de um torneio seu comigo. Se não quiser fazer um pacote integral de coaching, vamos marcar a revisão de um torneio jogado por você. Vamos discutir e quem sabe abrir novas visões para suas convicções. Me mande um email em leobello@leobello.com.br. Uma session review sai entre U$300 a U$450, dependendo do tamanho do torneio e do número de sessões que faremos para finalizar a revisão mão a mão. Eu gravarei em vídeo a revisão que fizermos juntos. Então além do que você aprender no call, poderá rever depois em vídeo tudo que discutimos.